Shenmue, Sony e Kickstarter

A conferência da Sony marcou a E3 ao fazer algo raro: ressuscitar projectos com obituários assinados pela comunidade e indústria. Quem, no seu perfeito juízo, acreditava sem sombra de dúvidas que The Last Guardian estava vivo, de boa saúde e com Fumito Ueda ainda ao leme, ou que Shenmue 3 deixaria as listas de “sequelas que nunca irão ver a luz do dia”? Foram momentos ao jeito de “Lázaro, levanta-te e anda” e reminiscentes do N64 Kid que mereceram aplausos, histeria e (não duvido por um segundo) lágrimas. Não obstante, são promessas e promessas renovadas após um longo período de silêncio e incredulidade. The Last Guardian chegará nove anos depois do início de produção, sete após a sua revelação na E3 2009, e Shenmue 3 é anunciado pela Sony como uma campanha Kickstarter com a qual a gigante nipónica nada tem a ver.

Enquanto a (re)apresentação de The Last Guardian confortou os fãs da Team ICO (apesar de não ter direito a menção nos créditos, apenas o estúdio maior Japan Studios), Shenmue 3 teve uma boa dose de confusão por entre o êxtase que inundou o LA Convention Centre e a Internet. A razão para a confusão é simples: o que faz a Sony a apresentar uma campanha Kickstarter de Shenmue 3 com uma meta de 2 milhões de dólares em vez de financiar o projecto como exclusivo? Se não tem fé no projecto e, consequentemente, não o financia, porque é que cede tempo de palco na E3? Claramente, 2 milhões serão trocos para a Sony.

A questão é outra. O palco da E3 foi a melhor divulgação que Shenmue 3 podia ter tido (confirmando-se pelo facto de ter ultrapassado a meta em oito horas). Uns dizem que a Sony se aproveitou disso, conseguindo um exclusivo de consolas (para já só está previsto para o PC para além da PS4) e crédito bastante positivo aos olhos da comunidade que há tanto esperava o terceiro capítulo da saga. Este argumento, contudo, pressupõe uma relação de desigualdade entre a Sony e Yu Suzuki, o produtor de Shenmue; mas, dado o sucesso estonteante da campanha Kickstarter, este acordo entre ambas as partes foi um perfeito quid pro quo: Yu Suzuki recebe financiamento e a Sony os aplausos.

É, de facto, estranho ver projectos de crowdfunding anunciados no palco da E3 durante a conferência de uma das três grandes. Porém, é só um ajustar de contas com a realidade da indústria. As campanhas Kickstarter, indiegogo e Early Access são uma realidade e o primeiro desafio para quem as tenta gerir é a divulgação. Com a ajuda da Sony, Shenmue 3 quebrou recordes e, mais importante ainda, vai ser real por volta de 2017. A Sony pode não ter dado dinheiro do próprio bolso, mas à data de publicação deste artigo a campanha conta com 2,355,831 dólares e ainda tem mais 31 dias até terminar.

Não é de todo a relação “estagiário curricular-empregador” em que uma parte gera lucro com o trabalho da outra que dá o corpo ao manifesto, recebendo nada mais do que uma nova entrada para tornar o currículo mais gordo. Não. Shenmue 3 é real (ou será, a jogar pelo seguro). Estou confiante de que teria tido sucesso sem a ajuda da Sony, mas certamente que qualquer outro produtor com uma campanha no Kickstarter daria um braço ou uma perna para ter este tipo de exposição na E3.

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