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Jogos velhos, geração nova

Há quem argumente que devemos referir-nos à PS4, Xbox One e à Wii U (sim, também) como consolas de “corrente geração” em vez de “nova geração”. O argumento é válido, dado que a última das três (a Xbox One), foi lançada nos EUA há quase dois anos. Ainda assim, e se têm acompanhado os podcasts do Glitch, saberão que há vários problemas que podem ser apontados à corrente geração de consolas. Porém, acredito que há um mais central e maior do que os restantes: a crise de identidade. Com a E3 à porta, os jogadores esperam as grandes revelações, mas será que as vamos ter este ano?

A indústria dos videojogos chegou à oitava e actual geração de consolas numa altura de mudança. Não só as consolas em si deixaram de ser inteiramente distintas do PC, como há quem levante dúvidas sobre a sua relevância, apontando o seu fim e o surgimento de serviços de streaming no futuro; como também chegaram às lojas numa altura em que o mercado está dividido em três frentes: os jogos indies, os títulos AAA e todos os restantes, aos quais me referirei como os Remanescentes.

Depois há coisas destas, que não temos bem a certeza do que são, mas isso é material para um outro artigo.
Depois há coisas destas, que não temos bem a certeza do que são, mas isso é material para um outro artigo.

Todos estes, no entanto, transpiram revivalismo e nostalgia – os indies porque, em parte, faz parte da sua mentalidade e estética, os títulos AAA por uma questão de tendência e maximização de lucros, e os Remanescentes porque, em termos de game design, acabam por representar aquele segmento da indústria que no cinema é chamado de série B (baixos valores de produção, jogabilidade datada, narrativas cliché e bugs em barda).

Enquanto os indies e os Remanescentes são por natureza nostálgicos, são as grandes editoras que estão a pisar território alheio. Um dos aspectos mais sintomáticos do problema é o lançamento de remasterizações (ou não) de jogos de gerações anteriores, uma estratégia que se reproduz em lucro fácil, face a um investimento reduzido. Não é o relançamento de títulos que é o problema – até porque é uma boa forma de assegurar os jogadores que, apesar de não haver retrocompatibilidade, não precisam de ter mais do que uma consola –, mas o facto de as editoras estarem a preencher o seu calendário com jogos reciclados em vez de investirem em jogos novos.

Ironicamente, são os indies, na sua postura revivalista, que mais têm inovado conceptualmente (Mark of the Ninja, Journey, The Walking Dead). Às grandes editoras faltam novas séries e experiências que são tradição das novas gerações, e esta ausência demonstra a falta de confiança das editoras nos seus estúdios, mais do que no mercado. Multidões mais diversas e mais realistas são uma das portas que a nova tecnologia oferece, mas a experiência de Assassin’s Creed: Unity acaba por cair em território familiar. Pior: a única verdadeira novidade (modo cooperativo) falha redondamente no campo técnico e a experiência tradicional é assombrada por inúmeras falhas.

Mark of the Ninja não só fez o que se pensava impossível (acção furtiva em 2D) como reinvigorou o género. Qual reboot de Thief, qual quê...
Mark of the Ninja não só fez o que se pensava impossível (acção furtiva em 2D) como revigorou o género. Qual reboot de Thief, qual quê…

Assassin’s Creed é um caso flagrante, mas porque sofre de desgaste. Outras séries, algumas que me são queridas, poderão vir a ter um destino semelhante exactamente por serem tão lucrativas para as respectivas editoras. Não duvido que Batman: Arkham Knight seja um sucesso crítico e comercial, mas não imagino que a série consiga escapar à rotina e reinventar-se quando for necessário.

O que pode Gears of War 4 apresentar que os três originais e o spin-off não tenham já vincado na geração passada? É por isso que, apesar de gostar da série, espero que Uncharted 4: A Thief’s End seja aquilo a que o trailer aludiu e o subtítulo reforça: o fim da série e o ponto de partida para a Naughty Dog dar início a uma nova etapa com uma nova série que nos prove que é possível fazer mais e melhor com a corrente gerações de consolas, tal como fez na anterior. É por isso que espero ansioso pelo lançamento de The Division, embora depois de Watchdogs esteja céptico em relação às grandes promessas da Ubisoft.

"One last time" costumava querer dizer qualquer coisa definitiva até Kojima acabar a série Metal Gear Solid com Guns of the Patriots. Ah, não, espera...
“One last time” costumava ter um significado bastante concreto até Kojima lançar Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots.

É sintomático vermos uma boa parte da comunidade dos jogadores interessados no regresso de séries antigas e adormecidas como Beyond Good and Evil, Shenmue (agora sem brincadeiras), ou mesmo Mirror’s Edge. Curiosamente, estas séries tiveram um ou dois lançamentos, não trilogias dentro de trilogias, e é isso, em parte, que nos leva a querer regressar a esses universos: a expectativa de sentirmos a mesma novidade que sentimos quando os jogámos pela primeira vez. Há séries que vão continuar infinitamente. Algumas como The Legend of Zelda justificam essa perpetuação, reinventando-se; outras, como Call of Duty, porque o público assim o exige, adquirindo os lançamentos anuais.

E depois há outros títulos que prometem seguir uma tradição de experiências únicas, mas não falemos de The Last Guardian, que nesta altura já se torna triste…

Duarte Pedreño Ver todos

Adepto de indies, fã antigo da série Total War, e tenho uma relação especial com os jogos de Fumito Ueda. Não sou muito esquisito, gosto de desporto, acção, aventura, RPG... Só dispenso terror e jogos de corrida, a não ser que seja o Crash Team Racing.

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