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4 boas ideias corrompidas | 4. Embargo

Embargo

“O que é um embargo?” poderão perguntar. A resposta é simples: é uma data estipulada pela editora, antes da qual nenhum jornalista está autorizado a publicar uma análise (ou antevisão) do jogo em questão. Quando as críticas começam a chover a potes no Facebook e no Metacritic é sinal de que o embargo expirou.

O benefício pode não ser óbvio, mas é vital para os meios especializados e, consequentemente, para o público. Isto porque garante que os jornalistas/críticos têm até à data estipulada para testarem o jogo devidamente e formarem uma opinião concreta sem terem de se apressar, preocupados em serem os primeiros a publicar o veredicto. Isto garante, à partida, que todos os meios de comunicação ligados à indústria, grandes e pequenos, estão em pé de igualdade. E a igualdade é uma coisa muito bonita.

Mas como não há bela sem senão, o embargo pode ser utilizado de forma mesquinha e matreira, como a Ubisoft fez questão de comprovar com Assassin’s Creed: Unity, cujo embargo terminou no dia de lançamento do jogo por volta da hora de almoço, dependendo do fuso horário. Resultado: quando os “peritos” puderam partilhar as suas críticas, já centenas de milhares de jogadores tinham o jogo nas mãos (muitos deles aliciados pelos bónus da pré-compra).

Assassin’s Creed: Unity é um jogo sobre um grupo de piquetes de greve mais extremistas.

Isto gerou uma revolta por parte do público, que se sentiu enganado por gastar dinheiro num produto com falhas que tinham vindo a ser escondidas durante a promoção anterior ao lançamento, e dos críticos que se sentiram amordaçados e completamente dependentes das editoras.

Porquê dependentes? Porque a relação entre um meio de comunicação e uma editora é algo frágil e é a editora que tem a faca e o queijo na mão em qualquer situação. Um jogo sem cobertura mediática ou análise publicada continuará a ser vendido numa loja, mas um site sem conteúdo (porque uma editora decidiu boicotar o dito site por não respeitar um embargo, por exemplo) não tem visitantes e sem visitantes não tem publicidade, que é o que gera dinheiro para pagar ordenados. Em suma, as editoras vivem bem sem os meios de comunicação (com vendas piores, provavelmente, mas vivem), enquanto os meios de comunicação se arriscam a morrer sem as editoras.

Um assassino que se preze dorme de olhos bem abertos.
Um assassino digno desse título dorme de olhos bem abertos.

Não surpreendentemente, o embargo suspeito tinha razão de ser. Unity chegou às mãos dos jogadores com vários problemas, alguns leves e típicos, outros mais profundos e atrozes. Assim aconteceu, em grande parte, porque os jogadores não puderam ler/ver/ouvir os veredictos finais de quem tinha acesso ao jogo. Felizmente, os protestos ecoaram e obrigaram a uma resposta por parte da Ubisoft, que prometeu redimir-se das suas práticas condenáveis. Vale o que vale e estaremos cá para ver se a promessa é cumprida.

Em jeito de conclusão, estas não são as únicas boas ideias corrompidas pela indústria; há muitas mais e mais virão à medida que forem surgindo novas boas ideias. É algo incontornável, especialmente por se tratar exactamente de uma indústria. Os custos de produção e promoção para títulos AAA estão cada vez mais elevados e isso exige que se corram menos riscos e que o retorno seja maior. A moral disto tudo? Como em tudo, a indústria dificilmente mudará por si só. Teremos de ser nós, os jogadores, a mudar as nossas práticas para que as editoras mudem as suas.

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